segunda-feira, 12 de abril de 2010

Adubo para as plantinhas

Quando eu era ainda uma pequena menina (isso foi na primeira metade dos anos 80), ainda passavam carroças na minha cidade e principalmente no meu bairro que ficava próximo a rodoviária. Bem, vocês devem estar pensando o que tem a ver as carroças com a rodoviária, né? Será que o meio de transporte municipal era feito por charretes? Não, é que perto da rodoviária fica o mercado municipal e o centro da cidade. Mas, além disso, o bairro em que eu morava ficava próximo ao final da cidade, perto do limite entre a zona urbana e zona rural. Nossa, hoje em dia naquele bairro fica no centro da cidade e distante da zona rural tamanho o crescimento.


Enfim, eu morava na rua do atual prefeito da cidade na atualidade e o povo do sítio vinha de charrete, em regra, o alazão puxando o marido, a mulher e cinco filhos atrás.

Nesta cidade os bairros são feitos de morros e como não podia ser diferente, o bairro que residia era uma das maiores montanhas da onde se avistava uma parte do centro da cidade. Se o centro não fosse uma montanha, daria para avistar o restante também. Achava engraçado o cavalo descendo a rua de casa, claro, uma ladeira, parecia que descia rebolando as ruas de paralelepípedo, às vezes até escorregava nas pedras, neste momento tinha pena do cavalo, ainda mais porque o jegue que estava em cima nem mudava sua expressão, continuava mascando seu capim, dando chicotadas e pensando na morte da bezerra. Mais engraçado mesmo era quando o cavalo entre uma rebolada e outra levantava seu rabo e liberava aquelas bolotas verde musgo e que não se desfaziam ao cair no chão. Morria de rir, risos puros de criança.

Lembro que tinha um casal que sempre que vinha para a cidade de charrete, aproveitavam para trazer umas verduras e legumes de sua horta, quando se encomendava trazia também frango caipira (vivo) e ovos. O homem sentado encima da charrete, pensando na morte da bezerra e aguardando a próxima ordem da patroa que descia a ladeira batendo de porta em porta oferecendo seus produtos e assim, faziam um dinheirinho antes de irem para a cidade. ( Naquele tempo, até nós que morávamos na cidade falávamos: “vamos para cidade hoje?”, querendo dizer: “vamos para o centro da cidade hoje?”. Era engraçado como as mulheres da rua se reuniam para conversar sobre o casal depois que partiam.

Naquela época noventa por cento das mulheres eram donas de casa, tinham tempo para ficar papeando na rua e tinham certeza de que nós crianças não estávamos entendendo nada do que elas conversavam. Imaginavam e comentavam como deveria ser a vida daquele casal, como ela mandava nele e deveriam fazer o mesmo em casa, como nunca tinham ouvido a voz dele e como ela falava pelos cotovelos e como só ela lidava com o dinheiro. Até um dia em que ela veio sozinha para a cidade e perguntaram para ela porque seu marido não tinha vindo e ela disse: - quem? meu irrrmão? Ahhh, ele ta custipado... Neste momento todas se entreolharam e seguraram o riso. Este casal, foi à única charrete que continuou passando na rua até a alguns anos atrás, afinal, tinham além de transporte, um comércio.

Comecei não achar mais divertido ficar sentada na calçada vendo a charrete passar, porque toda vez que iam embora e as bolotas ficavam lá na rua, verdinha, tinindo, exalando seu cheiro e ainda em sua forma original, minha mãe pedia para eu ir disfarçadamente com a “pazinha” de lixo da cozinha ir pegar as catotinhas, a merda, o esterco, o adubo para as plantinhas.

Torcia para que ninguém visse, principalmente meus amigos, ia correndo e voltava correndo, perdendo umas bolotas no caminho. Minha mãe garantia que não tinha nada de mais em minha atitude, mas ria, até o dia que decidi que nunca mais cataria merda na minha vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário