sábado, 26 de junho de 2010

Tempo voando com as pipas.

Ontem mesmo Paulinha estava com seu pai e seu irmão na cozinha preparando em um potinho uma porção de farinha de trigo com água. Esta pasta que se formava seria o que chamavam de cola, que servia tanto para colar figurinhas no álbum, recortes no dever de casa, como para confecção de pipas, o que estavam fazendo naquele momento. Em seus seis anos de idade vivia momentos mágicos juntos com seu pai e irmão. Passado mais de trinta anos lembra o quanto se sentia útil nas pequenas missões que lhe passavam.

Durante à tarde, Paulinha tinha ido com sua mãe na papelaria e quando viu aquelas folhas de seda penduradas, como um lençol no varal, logo teve a idéia de fazer pipas à noite, como sempre fazem nas férias de julho. Sua mãe comprou duas cores para ela e duas para seu irmão Ricardo. Chegando em casa, mostrou para o irmão as folhas e logo foram juntos ao final da rua onde havia um matagal com muito bambu, cortaram um e preparam algumas varetas que exigia muito cuidado, tiravam suas farpas e cortaram em dois tamanhos diferentes.

Quando o pai de Paulinha chegou à noite do trabalho, toda matéria prima estava em cima da mesa da cozinha disputando espaço com o jantar, ao perceber o que lhe esperava ele olhou para a mulher que lhe retribuiu com um olhar que indicava que não teria saída e questionou as crianças que lhe preparavam os últimos detalhes:

- Teremos muito trabalho hoje então, crianças? Não tinha como o ar de cansaço de seu trabalho sumir de seu rosto neste momento. Sempre fez questão de estar com seus filhos o máximo de tempo que conseguisse, já que seu pai nunca pode fazer o mesmo por ele.

Paulinha foi logo dizendo:

- Sim, papai!! Hoje quero fazer uma Pipa de duas cores. E Ricardo:

- Eu quero fazer duas, uma de cada cor!

Durante o jantar combinaram por onde iriam começar, o pai, foi perguntando de todos os utensílios que iram utilizar, tesoura, faca, linha n. 10, varetas, saco plástico para a rabiola, papel de seda, cola...Cola? – Ixi, não temos cola pai. Assim, surgiu a primeira tarefa que ficou por conta de Paulinha. Aquele foi um dos jantares mais rápidos e que agradou muito a mãe, Lídia, pois a tempos não via a filha comer toda a comida do prato sem ter que insistir.

Iniciados os trabalhos, começaram com as varetas, tarefa de Ricardo, estavam lisinhas e sem farpas. Enquanto o irmão as segurava em forma de uma cruz o pai as prendia transpassando linha no ponto de encontro das varetas.

Depois, passavam linha por todas as pontas das varetas, após, a Pipa estava pronta para receber o papel de seda. Colocaram então o esqueleto em cima da folha e recortaram o formato da pipa um pouco maior para receber a cola. Chegou a hora da tarefa da Paulinha.

Perto da pia, com o potinho que sua mãe lhe deu, um pouquinho de farinha de trigo branquinha e pouco de água mexia a mistura até virar uma gosma. Enquanto mexia já se imaginava correndo em sua rua, o vento ajudando e sua pipa lá no alto. Olhando ao redor para ver se nenhuma outra pipa se aproximava querendo tirar uma rachinha. Contando para que todos que a sua pipa foi feita em casa.

Hoje, passado todos esses anos, esta com mesmo potinho em suas mãos, uma coisas que levou para sua casa quando casou, porém suas preocupações são outras, as brincadeiras de seus filhos são outras, a saudade é muita e a mistura que hoje prepara não é cola e sim tintura para seus cabelos brancos.