segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O FANTASMA DA AVENIDA EUROPA

Zé, um moço que diz ser este o seu nome, e só também, sobrenome ele não sabe se já teve um, faz questão de não ter um passado, imagina que sua cidade natal seja Xique Xique na Bahia, lugar que prometeu nunca mais voltar desde o dia em que passou a maior vergonha da sua vida, a de ter sido abandonado no altar por sua noiva, Cremilda, que era filha de um grande fazendeiro da cidade, seu Raimundo, que além de ser seu sogro, era seu empregador. Tinha a promessa de seu sogro que depois do casamento assumiria a chefia de toda a Boiada. Coitado, perdeu em uma noite, a mulher, o emprego e todo seu sonho de vida confortável e o pior, o culpado de tudo isso foi seu irmão gêmeo, que vendo a sorte grande do irmão, roubo-lhe a noiva e a fez desistir na hora H. Desde então, ficou inconsolável, perdeu a noção da realidade, no mesmo instante resolveu fugir dos olhares dos convidados e da própria vida, anda perambulando por cidades, seu único objetivo é arrumar uns trocados para sua pinguinha, (o que achava ser o remédio do esquecimento) e qualquer coisa que matasse a sua fome. Sempre dorme onde consegue um lugarzinho, pode ser em um banco de praça, embaixo da ponte, ou por onde cai e fica.... Até que um dia, ele veio parar em Bragança Paulista depois de um caminhoneiro o levar na carroceria a mando de um político de uma cidade vizinha que achava que sua presença nos bancos da praça estava deixando-a feia. Chegando à Praça Nove de Julho pediu para ele descer. De lá, ele foi andando até a Avenida Europa e tomou um banho no ribeirão embaixo do bambuzal do campo de futebol dos Ferroviários. Depois de se secar ao sol de fim de tarde, continuou a caminhada e conseguiu entrar em uma construção naquela mesma avenida.

Já havia se passado mais de 15 anos desse acontecido, a desilusão amorosa e financeira, sua família nunca mais teve notícias suas, andava pelas ruas falando sozinho, sempre achava um cachorro que o acompanhasse e todos tinham o mesmo nome, Jégue. Como já estava anoitecendo e tinha uma pinga de reserva na sua sacola começou a procurar naquela avenida mesmo um lugar para dormir. Encontrou uma construção, tirou sua garrafinha de Pitchulinha (pinga) da bolsa, e começou com os goles para esquecer sua própria vida. Quando pensava estar chegando perto do grau do esquecimento, tudo vinha à tona em seus pensamentos e começava a xingar todos os culpados por aquela noite do seu casamento apoiado por seus fantasmas internos com quem conversava e era sempre assim, até o momento em que consegue dormir. Esta noite dormiu pesadamente. Logo pela manhã, foi acordado com a voz de um homem dizendo: O que você está fazendo aqui!? Desde quando esta aqui!? Isto é uma propriedade particular. Você tem que ir embora daqui!

Sua cabeça doía, se sentia como se estivesse em um carrossel, não enxergava de quem era aquela voz, de onde vinha. Não disse nada e voltou a dormir. Quando acordou, deu um salto, pegou suas coisas e foi embora. Acordou com a certeza de que aquele lugar era mal assombrado. Saiu então pelas ruas da cidade de Bragança Paulista a procura de uns trocados para a Pitchulinha da noite e alguém que lhe desse comida. Começou então pelas padarias da cidade, afinal de contas precisava começar pelo café-da-manhã. Uma coisa ele sabia, onde tem praça, tem padaria. Passou a perguntar para as pessoas na rua onde ficava a praça e depois se tinha uma moedinha pra arranjar, dizia que era para completar o valor da passagem de ônibus para poder retornar para sua terra. Perguntado e arranjando umas moedinhas chegou na praça central da cidade e para sua surpresa não havia nenhuma padaria naquela, depois de xingar muito, resolveu perguntar onde ficava alguma outra praça (ao invés de perguntar onde tinha uma padaria) e lhe ensinaram como que se chegava na praça da igreja do Rosário. Achou linda e aconchegante aquela praça. Sentou-se em um banco onde do lado havia um cachorro dormindo, logo fez amizade e lhe chamando de Jegue.

Neste mesmo momento estava passando um senhor que o reconheceu e lhe perguntou:

- Que bom que você saiu da construção e não vai mais voltar lá, né? Você vai arrumar outro lugar para dormir?

Assustado Zé questionou:

- Uhhh “home”, você também conhece o fantasma daquela construção?

O pedestre segurou o riso e disse:

- Conheço sim, é o fantasma que ronda sempre aquela avenida, se chama o fantasma da Avenida Europa e ele disse que se você voltar lá não conseguirá dormir....

Zé não pensou duas vezes e foi logo garantindo para o amigo do Fantasma que lá não voltaria mais, convidou o Jegue para acompanhá-lo e saiu caminhando e foi logo perguntando para as pessoas onde ficava a saída da cidade. De fantasmas já bastava os que diariamente o atormentava, sempre manteve a esperança de que fantasmas fossem coisas de sua cabeça e culpa da “marvada” pinga. Mas, com aquele senhor confirmando a existência queria era logo fugir daquela cidade.

Zé nem percebeu que aquele Senhor não conhecia fantasma algum, que era a própria pessoa que o expulsou da construção, o proprietário.